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Abandono da Casa Kraft gera preocupação

Parcialmente derrubado desde setembro, imóvel tem sido motivo de transtorno, segundo vizinhos

Jô Folha -

Passados seis meses da polêmica envolvendo a Casa Kraft, o local encontra-se abandonado, o processo segue em andamento e moradores reclamam da insegurança que se tornou o local. Em setembro de 2020, a casa situada na rua General Osório, na esquina com Antônio dos Anjos, foi parcialmente demolida para a construção de uma farmácia. Porém, após movimentação da comunidade, uma liminar impediu o processo de destruição por completo. Desde de então, o futuro do imóvel segue nas mãos da Justiça.

A casa, que não possui proteção legal por não ser tombado nem faz parte do inventário municipal do patrimônio histórico, integra a memória afetiva de vários pelotenses. Entretanto, para os moradores do entorno, os sentimentos são bem diferentes: de insegurança e medo.

Por conta do abandono e sem perspectiva de novos investimentos no momento, pessoas em situação de rua começaram a habitar o local e vizinhos reclamam do aumento de assaltos nas redondezas. Além dos furtos daquilo que restava da casa, desde tapumes até ferros, o local estaria sendo usado como acesso a outras residências próximas. A professora Rosana Amaral, 54, passa a maior parte dos seus dias com a mãe de 83 anos, portadora de Alzheimer e vizinha da casa. Ela conta que uma de suas vizinhas tomou a decisão de se mudar após ter pertences e o próprio gato furtados.

“É um transtorno. A minha mãe é uma das mais afetadas, pois a própria casa se tornou um ponto perigoso. Quando disseram que iam vender e começou a demolição estava tudo tranquilo. Durante um mês colocaram tapume e teve segurança 24 horas. Mas quando parou, no primeiro dia que a segurança já não estava mais ali as pessoas começaram a invadir. Chamamos a polícia, ela veio mas parece que foi pior porque eles queriam fugir para qualquer lado, foi uma correria”, relata. Conforme Rosana, é comum que objetos sejam jogados para dentro de seu pátio e que pessoas subam no telhado do imóvel abandonado e batam janelas a qualquer hora do dia e da noite. “A gente só quer uma solução porque como está é pavorosamente inseguro.”

Processo segue na justiça

Com parte da estrutura destruída, a Casa Kraft segue sob incertezas. O processo judicial teve início com ação cautelar contra o município e os proprietários do imóvel. Na oportunidade, o Ministério Público (MP) pediu, em caráter liminar, que fosse suspensa a autorização para a demolição, concedida pelo juiz de primeiro grau.

Após a decisão, os demandados na ação pediram a reconsideração pelo juiz, mas ela foi negada. Um recurso ao Tribunal de Justiça pedindo a revogação da liminar também foi rejeitado, mantendo a decisão de primeiro grau e a casa permanecendo sem a demolição completa.

O futuro do local permanece em uma disputa entre município, proprietários do local e Justiça. Atualmente, o processo segue no MP para que seja realizada réplica em relação à contestação da prefeitura. Os próximos passos são a apresentação de mais provas, caso as partes queiram produzir, incluindo ouvir testemunhas. “Ainda tem uma longa caminhada”, afirma a assistente jurídica da 1º e 2º Promotoria Especializada, Ivana Morales. O MP diz não ter recebido reclamação de vizinhos da Casa Kraft sobre invasão ou insegurança no local.

Relembre

Construída na década de 1950, a casa pertenceu à família Kraft até 1985, nome pela qual tornou-se conhecida. É um dos marcos do crescimento de Pelotas a partir desta década, quando novos loteamentos passaram a ser oferecidos no munícipio. Ao longo da história, recebeu o ex-presidente da República, João Goulart, em visita a Pelotas, e também abrigou o artista pelotense Leopoldo Gotuzzo.

Em 2020, a casa foi vendida para investidores, que iniciaram o processo de demolição para a construção de uma farmácia. Com o início da destruição da fachada em setembro do ano passado, uma forte mobilização com iniciativa de profissionais da área da arquitetura ligados à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), foi promovida através das redes sociais, com muitas manifestações contrárias ao desmanche. Diante da repercussão, a empresa optou pela rescisão contratual com os proprietários. Desde então, o imóvel segue parcialmente demolido.

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