Solidariedade
Comunidade acadêmica unida por um sonho
Vendedor de doces do campus Capão do Leão da UFPel ganhará novo lar após enfrentar grande dificuldade na pandemia
Jô Folha -
Sorridente e acolhedor. É assim que os alunos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) envolvidos em uma campanha para ajudar Vilmar Aldrighi, 63, vendedor de doces no campus Capão do Leão, o definem. Com sua banquinha na porta do Restaurante Universitário (RU) do local há 16 anos, ele já é considerado um símbolo da universidade. Carinhosamente apelidado de “Tio Golias”, coleciona amigos, histórias e até homenagens dos formandos. Com a suspensão das aulas, devido à pandemia do coronavírus, a renda do autônomo zerou. Entretanto, a comunidade acadêmica se sensibilizou com a situação e através de uma vaquinha online já arrecadou cerca R$ 60 mil e até um novo lar será construído para quem adoçava o dia deles.
A rede de apoio começou por Luana Jacobsen, 30. Ela conheceu Aldrighi em outubro do ano passado, quando também montou sua banca no campus. “Eu estava meio afastada, pois era a última que tinha chegado, mas ele me chamou, se apresentou e disse que o sol tinha nascido para todos”, relembra. Quando a crise sanitária chegou, ela lembra que a única fonte de renda do Tio Golias era a venda dos doces, então, entrou em contato com ele e em uma campanha bem menor conseguiu arrecadar alimentos e uma pequena quantia em dinheiro. Na entrega, deixou o número do telefone e o pedido que caso ele precisasse de algo era só chamar. “Agora em setembro ele ligou dizendo que não queria incomodar, mas que não tinha outra solução”, conta.
Em seguida da ligação, no último dia 8, Luana correu para o grupo do facebook da UFPel e, mais uma vez, pediu o auxílio da comunidade, disponibilizando a própria conta corrente para os depósitos. “No final do dia já tinha R$ 6 mil na minha conta”, diz, contente. A campanha proposta pela jovem foi encerrada no outro dia, contabilizando cerca de R$ 16 mil. Além dos depósitos, inúmeros alunos procuraram Luana para pedir o contato do autônomo e ir realizar as próprias entregas. Um deles foi o agrônomo Renan Kaufmann, 30, formado pela Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (Faem/ UFPel) e amigo do Tio Golias desde 2009, quando ingressou na universidade.
Kaufmann conta que inicialmente a ideia era levar um rancho até a residência de Aldrighi, fruto das doações de um grupo de amigos da faculdade. Com as contribuições feitas e os alimentos comprados, ele foi fazer a entrega. Somente nesse momento o ex-aluno da UFPel conseguiu perceber a realidade de Aldrighi. “Quando cheguei lá tomei um choque, não tinha ideia de toda vulnerabilidade”. Com o rancho entregue, o agrônomo saiu de lá com apenas uma certeza: que precisava fazer mais por quem tanto se dedicou a construir uma relação de carinho e respeito com os alunos do Capão. Com uma série de ideias compartilhadas e a certeza que teria com quem contar, uma vaquinha online foi disponibilizada no grupo da UFPel e a situação do Tio Golias explicada à comunidade acadêmica.
Para a surpresa - e alegria - de todos, em menos de três dias a plataforma somou mais de R$ 47 mil. “Tomou uma proporção mundial, é aluno que está nos Estados Unidos e na Europa doando”, diz Kaufmann. Realizado com a rede de apoio que pôde contar, o jovem garante que quando acordou na quinta-feira, dia 10, e viu mais de R$ 30 mil doados teve a certeza que estava vivendo o dia mais feliz da vida. “A gente não tem ideia da grandeza de transformação dos nossos atos”, fala, emocionado.
Para organizar as obras e orçamentos, uma comissão de alunos e professores foi formada. Agora, segundo o engenheiro agrônomo a “mão na massa” começará. Com a boa quantia, o grupo também pretende arcar com um tratamento traumatológico que o idoso precisa fazer no joelho. “Vamos procurar um médico com ele, fazer os exames e ver se será necessário fazer uma cirurgia”.
Sorriso de gratidão
Foi de sorriso largo que o Tio Golias esperou a reportagem, na frente da sua casa, no Fragata. Cristão e amante das leituras bíblicas, ele disse logo de cara: “Com tanta violência no mundo ainda é possível ter esperança”. Morando sozinho e sem trabalhar há cerca de seis meses, ele confessa que só não faltou comida dentro de casa porque contou com o auxílio dos filhos e dos vizinhos. Vizinhança essa que enquanto acontecia a entrevista passava, cumprimentava e fazia questão de saber se estava tudo bem. Segundo ele, essa é a relação que mantém com todos, cheia de afeto, conversas e respeito. E com a UFPel e os alunos não seria diferente. “Me sinto acolhido”.
Aldrighi ainda não tem dimensão de tudo que aconteceu e também não consegue acreditar na quantia doada. “Eu não queria incomodar, mas prefiro pedir do que roubar”, falou, enquanto recordava o dia em que decidiu ligar para Luana. O sentimento que resume os últimos dias do vendedor de doces é a gratidão. E a vontade é só uma: “chorar de alegria”. Morando em um casebre de uma peça, ele dividiu o local com madeira, fazendo um quarto e uma cozinha, onde produz a própria comida em um fogão de duas bocas. “Aqui eu faço tudo”, contou, sempre com um sorriso de orelha a orelha.
O Tio Golias tem uma fiel escudeira, a sua bicicleta. Foi usando ela como meio de locomoção que ele se deslocou para o Capão do Leão durante todos esses anos. Com uma caixa de doces na traseira e um isopor de picolé na frente, percorria 13 quilômetros todos os dias até o local de trabalho. Com isso, uma lesão no joelho aconteceu e as dores começaram a aparecer. Mas pelas dificuldades financeiras o tratamento não avançou, mas agora ele já contou: “O Renan já me disse que vamos procurar um médico”. Ansioso pela nova casa, pelo acompanhamento médico e por tudo de bom que ainda está chegando, ele enxergar o impossível se realizando.
Quem deseja contribuir com o sonho do Tio Golias e da comunidade acadêmica da UFPel pode entrar em contato através do (53) 99925-5156 ou deste link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/chale-pro-tio-golias
Carregando matéria
Conteúdo exclusivo!
Somente assinantes podem visualizar este conteúdo
clique aqui para verificar os planos disponíveis
Já sou assinante
Deixe seu comentário