Prevenção

É preciso falar sobre suicídio

Setembro Amarelo chama a atenção para um problema que atinge principalmente os jovens

Jô Folha -

Setembro é o período do ano dedicado à conscientização para a importância dos cuidados com a saúde mental: durante os 30 dias do mês ocorre a campanha nacional Setembro Amarelo. O Rio Grande do Sul, há anos, ocupa o triste primeiro lugar no ranking de estados com as maiores taxas de suicídio. Batalha que precisa ser estendida para todos os dias do ano.

Cada vez que um paciente com tentativa de suicídio chega ao Pronto-Socorro de Pelotas ou então à Unidade de Pronto Atendimento do Areal (UPA), uma notificação é enviada ao Departamento de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que repassa ao Centro de Assistência Psicossocial (Caps) de referência para realização da busca ativa do paciente, seja por ligações ou pela visita domiciliar.

De acordo com as informações dos serviços, nos últimos meses as notificações baixaram consideravelmente. Em maio, por exemplo, o número caiu e ao dia cerca de uma ou duas notificações eram enviadas à SMS; no último ano, o número era de três a quatro ao dia. A chefe do Departamento, Marcia Helena da Rosa, ressalta a preocupação com a média de idade dos pacientes: a grande maioria jovens, entre 18 e 25 anos.

Por outro lado, o Comitê de Dados do governo do RS divulgou neste mês uma pesquisa que aponta os cinco grupos mais propensos a desenvolverem transtornos mentais durante a pandemia; os mais afetados são os professores e profissionais da saúde. De acordo com o relatório, as maiores prevalências de transtornos comuns foram identificadas entre os profissionais da educação (média de 36,9%) e da saúde (27,7%).

Depois desses grupos, estão as crianças e jovens, pessoas com transtornos mentais pré-existentes e em situação de vulnerabilidade social. “Ao relacioná-los, não pretendemos afirmar que o resto da população não será afetado, mas que o poder público deve focar suas ações nos mais vulneráveis para lidar com o tema”, destaca o documento.

Como lembra a chefe do Departamento da SMS, a proximidade dos profissionais de saúde com a tensão dos hospitais devido à pandemia da Covid-19 facilita uma desestrutura psicológica. “Inevitavelmente, o profissional de saúde trabalha com pressão o tempo todo. Ele carrega uma responsabilidade com os pacientes e com as famílias”. Somado ao medo de contrair a doença, são fatores como esses que colocam os médicos, enfermeiros e técnicos da área da saúde no grupo de pessoas com maiores prevalências de transtornos comuns.

Os professores, também por conta da pandemia, estão sob alto estresse diário. O novo sistema de aulas à distância, combinado com a falta de perspectivas quanto ao retorno presencial das aulas, são algumas das explicações para o aparecimento de transtornos como ansiedade e depressão. Segundo uma pesquisa do Instituto Península, que entrevistou mais de 7,7 mil profissionais da educação de todo país, 75% destes profissionais não receberam qualquer tipo de apoio das escolas onde trabalham.

Novo protocolo

Ainda neste mês, o Departamento de Saúde Mental do município passará a atuar sob as orientações de um protocolo interno aos profissionais voltado à proteção ao suicídio. “É extremamente importante capacitar o olhar para que as equipes enxerguem nas entrelinhas. Cada pessoa possui uma forma única de expressar seus sentimentos e precisamos atentar para os mínimos detalhes, sem menosprezar a dor e o sofrimento”, explica Márcia Helena.

Ainda conforme a chefe do setor, o protocolo está sendo discutido há mais de dois anos e foi elaborado por profissionais da saúde mental, como psicológicos, enfermeiros e assistentes sociais.

UFPel faz alerta

Em vista do Setembro Amarelo, o Grupo de Estudos sobre Acesso e Uso de Medicamentos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) emitiu um alerta à comunidade. Cabe a cada pessoa ficar atenta aos sinais de amigos e familiares, tais como: mudanças bruscas de hábito, perda de interesse por atividades de que gostava, descuido com a aparência, alterações no sono e no apetite, sentimentos de desesperança e comentários com tom de desespero.

“Depressão, dependência química, transtorno bipolar e outras doenças mentais podem levar ao suicídio, se não tratadas. Com as atuais medidas de isolamento, o medo, o distanciamento físico e vulnerabilidades socioeconômicas podem intensificar os efeitos da pandemia na saúde mental da população”, alerta o documento.

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