Plantação
Cultivo de oliveiras deslancha e ainda deve crescer
Na Zona Sul já são 20 produtores de azeitonas, que têm um amplo mercado interno a preencher, seja como conserva ou azeite; sem falar na tendência do olivoturismo
Jô Folha -
O cultivo gaúcho de oliveiras corresponde, hoje, a 65% da área plantada em todo o Brasil. E o melhor: a atividade segue em expansão, em especial na Metade Sul do Estado, que concentra 90% da produção do Rio Grande do Sul. Nos próximos dias, os olhares estarão voltados a Canguçu, onde ocorrerão encontro técnico e seminário direcionado ao eixo do turismo associado à degustação de azeites e azeitonas. Representantes de mais de dez municípios já confirmaram presença.
A implantação de olivais é recente no país. Os primeiros pomares começaram a produzir, em solo gaúcho, por volta de 2011. E, atualmente, da área cultivada que chega a 6,5 mil hectares quase 70% não entraram em produção. As árvores ainda estão em desenvolvimento. Os resultados nos próximos anos, portanto, serão cada vez mais expressivos.
Dados da Emater demonstram o quanto o cenário tende a deslanchar. A produtividade em terras situadas na Zona Sul - com pomares jovens e alguns em início de produção - oscila entre 1,5 mil e dois mil quilos por hectare. Quando estiverem adultos, entre os oito e os dez anos de idade, o rendimento dará um salto. "Pode atingir de quatro a seis mil quilos de frutos por hectare, em plena produção", afirma o engenheiro agrônomo Evair Ehlert.
Os desafios para obter regularidade
Reduzir a alternância nos resultados, a cada safra, é um dos principais alvos a ser alcançado. O tema, inclusive, estará na pauta do encontro técnico agendado para 15 de outubro, em Canguçu. Para conquistar mais regularidade e garantir rentabilidade, três pontos devem ser observados: as melhores variedades para cada tipo de produto, as tecnologias a serem implementadas conforme as características de clima e de solo e os alertas efetuados por pesquisa e assistência técnica.
"Essa é uma atividade com potencial para gerar ainda mais emprego e renda", destaca o coordenador do Programa Pró-Oliva RS, Paulo Lipp João, ao falar na importância de a produtividade ser ampliada. O fiscal estadual agropecuário ainda afirma que, em pouco mais de uma década, cerca de R$ 250 milhões já foram injetados entre aquisição de terras, implantação de pomares e de indústrias no Estado.
E os resultados justificam o investimento. Hoje há estrutura em toda a cadeia produtiva: das mudas - que antes eram adquiridas de países como Chile e Espanha - ao processamento da matéria-prima, até que os produtos cheguem à mesa do consumidor.
Pelotas integra lista dos olivais
Os primeiros pomares começaram a ser cultivados em 2016, na região da Cascata, 5º distrito de Pelotas. Cinco anos depois, os servidores da Embrapa Clima Temperado planejam expandir o negócio. Um projeto já está pronto e a próxima fase será de captação de recursos: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e instituições da União Europeia estão na mira, para tentar tirar as ideias do papel.
A intenção é apostar em duas frentes: um lagar próprio - para extração do azeite Dom Feliciano, que hoje é processado em Cachoeira do Sul - e montagem de estrutura para turismo rural, com a instalação de minicasas sustentáveis. A expectativa, portanto, é bastante positiva.
Em breve, com os 15 hectares de olivais em produção máxima, o total deve ultrapassar os 2,9 mil litros de azeite por ano. Na última e única safra foram cerca de 560 litros; todos comercializados para apreciadores do extra virgem. Para a próxima safra, a estimativa já é de um pulo para 930 litros; uma escalada que deve aumentar a cada ano, até que o pomar atinja seu potencial.
Valor agregado em alta
O pesquisador Sérgio Renan e a analista Rosângela Alves, ambos da Embrapa, unem-se aos conhecimentos da filha Marina Costa Alves, doutora em Agronomia, para irem em busca de outras possibilidades de agregar valor à produção de oliveiras. "É tudo muito recente, no Brasil, e os estudos ainda são incipientes", afirma Marina.
Comercializar os resíduos da produção do azeite para indústria de cosméticos, como sabonetes esfoliantes e cremes hidratantes, é uma das hipóteses. Utilizar a biomassa e transformar as folhas, hoje descartadas, em matéria-prima para chá é outra alternativa para tornar a empresa ainda mais rentável. "Estamos analisando as tecnologias necessárias", ressalta. E afirma que a família torce para outros produtores se juntarem à olivicultura, para o fortalecimento do próprio mercado.
Canguçu incentiva novos produtores
Um programa municipal acaba de ser criado para estimular que mais produtores se dediquem também ao cultivo de oliveiras; em especial os fruticultores que poderiam aplicar parte das técnicas que já possuem para ter outra possibilidade de renda. "Queremos abraçar esta cultura e se transformar na terra dos olivais", explica o coordenador geral da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo, Michel Gonçalves.
E Canguçu, neste momento, já possui a maior área plantada da Zona Sul, com 683,5 hectares. E para que se amplie, o trabalho passa a ser dividido em três pilares: identificação de áreas com apoio de assistência técnica, preparo da área e aquisição de mudas e processamento da produção e comercialização.
Na prática, o programa municipal de fomento à olivicultura já possui R$ 90 mil previstos para aplicação em 2022. Os produtores poderão ter acesso gratuito a calcário para o preparo do solo e contarão com desconto de aproximadamente 50% no custo da hora para uso de maquinário. Para compra de mudas também haverá facilidades para quem aderir ao programa, com carência de três anos para começar a pagar, já que é o tempo mínimo para os pomares começarem a entrar em produção.
Uma ampla demanda para ser atendida
Não é apenas o azeite que desperta interesse. O engenheiro agrônomo lembra que, principalmente, os novos produtores poderão voltar as atenções também à azeitona em conserva, com ampla demanda a ser explorada. "São olivais que já podem nascer com esta vocação", enfatiza Gonçalves. São detalhes que precisam ser avaliados antes de dar início à implantação do pomar, já que as variedades são específicas conforme o destino do fruto.
Safra deve ficar dentro da normalidade
A expectativa é da Emater. Os ventos leves associados ao sol dos últimos dias ajudam na polinização, para o "pegamento" do fruto - explica o engenheiro agrônomo Evair Ehlert. Por isso, a importância de as plantas não estarem com a copa tão fechada, para permitir que o pólen circule.
Participe do evento!
O encontro em Canguçu está marcado para os dias 14, 15 e 16 deste mês e está dividido em três partes. O debate técnico incluirá temas como fenologia e ponto de colheita; métodos produtivos de azeites e características sensoriais; qualidade de mudas e implantação de pomares e introdução e avaliação de novas variedades.
O evento também contará com eixo do turismo, com trocas de informações e de experiências entre convidados e participantes, para criação de rotas regionais. No sábado, 16, haverá roteiro pelos olivais da Fazenda Serra dos Tapes, no 3º distrito, onde ocorre a maior parte da programação.
* Informações:
- Associação da Indústria Comércio, Serviços e Agropecuária de Canguçu (Acican)
e-mail: acican01@gmail.com
Telefone: (53) 98428-7976
- Secretaria de Agricultura, Pecuária e Cooperativismo
e-mail: michel.aldrighi@cangucu.rs.gov.br
Telefone (53) 3252-7780 e 98102-7705
* Inscrições:
Pelo link: https://bit.ly/2WVMDIQ
Confira o panorama na Zona Sul*
Município Área em hectares Produtores
Canguçu 683,5 6
Pinheiro Machado 598,5 8
Pedras Altas 52 3
Piratini 45 2
Pelotas 15 1
Total 1.394 20
(*) Fonte: Emater
Conheça alguns números da cultura de oliveiras no RS
- Em 2020, eram 200 olivicultores.
Até março de 2022, o governo do Estado irá realizar cadastramento para atualização de dados, em parceria com o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) e a Emater.
- Hoje são 15 indústrias de azeite espalhadas em 11 municípios: Bagé, Caçapava do Sul, Cachoeira do Sul, Candiota, Canguçu, Dom Feliciano, Encruzilhada do Sul, Formigueiro, Pinheiro Machado, Santana do Livramento e Viamão.
- O total de marcas de azeite segue crescendo: já são 46. A grande maioria, entretanto, terceiriza o processamento por ainda não possuir estrutura e volume que justifique o investimento.
- Na safra 2020/2021 foram produzidos 202 mil litros de azeite.
O volume que pode ser considerado bom, diante de problemas climáticos como o inverno irregular, que causou antecipação de floradas. O excesso de chuvas, em setembro, e geadas tardias também afetaram algumas regiões do Rio Grande do Sul.
- 3 viveiros de mudas localizados em Barra do Ribeiro, Cachoeira do Sul e Santana do Livramento
- 16 olivais já apostam no olivoturismo, que se transforma em atração aos visitantes, ao mostrar como é feito o cultivo das oliveiras, a produção das azeitonas e permitir a degustação dos azeites extra virgens.
"Este segmento está crescendo. Considero a olivicultura a nova fronteira do turismo", destaca o presidente do Ibraoliva, Renato Fernandes.
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