Incerteza

Mais de 1,7 mil mulheres aguardam mamografia em Pelotas

Após a suspensão dos exames na pandemia, mulheres em tratamento cobram maior atenção

A fila de espera para mamografia em Pelotas chegou, no último mês, a 1.726 mulheres, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). A demanda reprimida tem como principal causa a suspensão de exames e procedimentos eletivos em função da pandemia. Enquanto isso, o número de casos de câncer de mama passa a apresentar uma falsa redução e liga o alerta para o diagnóstico tardio.

À espera do exame há seis meses, a dona de casa Neidamara Domingues, 50, relata que desde a descoberta do câncer na mama, em 2016, nunca conseguiu realizar o procedimento pelo SUS e precisou de doações para custear através de laboratório privado. "Faço quimioterapia, me pediram uma mamografia, fiz esse pedido na secretaria em outubro porque não tinha como pagar, mas vão fazer quase seis meses e nada, todos dizem que não tem como me ajudar", relata.

A mesma dificuldade é compartilhada pela empregada doméstica Denise Fernandes, 56, que passou por cirurgia para a retirada de um carcinoma invasivo em outubro de 2019. Após um ano precisou de encaminhamento para realização de mamografia e ecografia. Segue à espera até hoje. Ela conta que em maio deve apresentar os resultados destes exames, os primeiros pós-cirurgia, mas acredita que não terá em mãos. "A demora é algo angustiante, que nos leva a uma ansiedade tremenda. Em 2020 comecei a perceber na mama esquerda uma nova alteração, sendo necessária uma observação. Mas como, se não consigo fazer os exames?", desabafa.

Apelo ao legislativo

Na busca por respostas, a promotora de vendas Daiane Marques, 42, levou o apelos das mulheres que esperam exames em Pelotas à Câmara de Vereadores. Após passar por duas cirurgias para retirada de tumores na mama, útero e ovários em 2019 e já ter finalizado as sessões de quimioterapia e radioterapia em setembro do ano passado, Daiane mantém contato com o grupo de mulheres "Juntas Somos mais Fortes", criado para troca de experiências e apoio psicológico.

No dia 5 de abril, representantes do grupo e vereadores reuniram-se em videoconferência. A reinvindicação é quanto ao cumprimento da Lei Federal 13.896/19, que assegura a pacientes da rede pública com suspeita de câncer o direito à realização de exames no prazo máximo de 30 dias. "Sabemos que estamos vivendo uma pandemia, recebemos o apoio da Secretaria de Saúde no tratamento, mas o câncer está matando. Um ano de demora para uma mamografia para alguns pode parecer pouco, para nós é muito tempo", diz Daiane.

Fila que só cresce

Segundo dados da SMS, em 2020, 1.641 mamografias foram solicitadas. Em nota, a pasta afirma que a "demanda se formou em decorrência da pandemia, pois anteriormente não havia fila de espera para esse tipo de exame. Isso era possível, pois o número de mamografias, contratualidades com os hospitais, era maior na época e atendia a demanda. Com a pandemia esse fluxo precisou ser reorganizado e alguns locais tiveram que reduzir os exames de imagem para pessoas que não estivessem em tratamento para a Covid, pois tanto o raio-X quanto a mamografia, por exemplo, são realizados na mesma área".

Até a suspensão dos exames, 800 mamografias mensais eram oferecidas pelo município juntamente com o Hospital Escola da UFPel e a Beneficência Portuguesa. As instituições suspenderam os exames porque os espaços são utilizados por pacientes suspeitos ou confirmados de infecção pela Covid-19. Para tentar amenizar o problema, a prefeitura afirma que aumentou o número de mamografias contratualizadas, passando a disponibilizar 1.025 exames por mês nestas instituições, que devem começar a ser realizados assim que a pandemia da Covid-19 arrefecer.

Casos em redução

Em contraponto ao crescente número de mulheres esperando por mamografia, os casos de câncer de mama no Estado e em Pelotas reduziram em 2020, o que pode ser uma explicação.

De acordo com dados do Painel-Oncologia do Ministério da Saúde, 129 mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama em 2019, em Pelotas, enquanto que em 2020 foram 121 mulheres. Os diagnósticos se referem a casos de neoplasia maligna da mama e carcinoma in situ da mama. No Rio Grande do Sul, o número de diagnósticos em 2020 foi 57% menor que no ano anterior, passando de 3.138, em 2019 para 1.327 em 2020

Segundo o ginecologista e mastologista Marcelo Sclowitz, a redução no número de casos é improvável diante das circunstâncias apresentadas. Ele alerta para as consequências do diagnóstico tardio. "A hipótese de que haveria uma redução na procura e no acesso à consulta médica e exames preventivos, na minha opinião, é o mais provável. A pandemia certamente trouxe redução na procura e no acesso ao rastreamento do câncer mamário, o que infelizmente iremos constatar em futuro próximo com aumento de diagnósticos em estágios avançados da doença, quando a chance de cura com tratamentos menos agressivos se torna bastante reduzida. Atualmente, recomendamos que as mulheres realizem mamografia para rastreamento do câncer de mama a partir dos 40 anos e anualmente", explica.

Atividade física vinculada ao tratamento

Visando auxiliar mulheres em tratamento do câncer de mama, uma pesquisa que envolve alunos de graduação e mestrado, além de professores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) busca mostrar os efeitos do exercício físico supervisionado por chamada de vídeo sobre os desfechos psicológicos e físicos de mulheres de Pelotas e Porto Alegre em tratamento.

O estudo, que teve início em março, tem como objetivo determinar os efeitos da atividade física durante o tratamento do câncer. A duração é de 12 semanas e, para que seja executado, 36 mulheres em tratamento do câncer serão escolhidas. Atualmente, 17 mulheres integram o projeto, 16 de Porto Alegre e apenas uma de Pelotas. O recrutamento segue aberto durante todo o período até que sejam completadas as vagas.

"Está tudo adaptado, sendo feito pela internet. Vimos a necessidade desse estudo porque essa população, principalmente quando está realizando o tratamento, precisa de muita atenção. Além disso, a atividade física pode amenizar diversas consequências destes tratamentos, além de trazer melhor qualidade de vida para essas mulheres", afirma a coordenadora do estudo e professora do curso de Educação Física da ESEF/UFPel, Stephanie Santana Pinto.

Interessadas em participar do estudo podem entrar em contato pelo telefone (51) 99302-3340, com João Henkin.

 

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