Na rede estadual
Mapa da Covid na educação
Governo gaúcho dá início a levantamento sobre os impactos da pandemia no ensino público do Rio Grande do Sul
Jô Folha -
Nesta semana, os 18 municípios da 5ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) irão participar um levantamento feito em todo o Rio Grande do Sul pelo governo do Estado para mapear como ficou o conhecimento dos alunos da rede estadual de ensino durante a pandemia. O intuito da avaliação é medir o impacto causado no aprendizado desde o começo das aulas remotas. A partir dos dados obtidos, será possível direcionar quais disciplinas da grade curricular devem receber mais atenção dos educadores e das instituições de ensino.
A coordenadora da 5ª CRE, Alice Maria Szezepanski, explica que serão aplicadas provas de língua portuguesa e de matemática aos estudantes do 2°Ano do Ensino Fundamental até o 3° do Ensino Médio. Ficam de fora, os alunos do 1° Ano do Fundamental, cursos técnicos, Normal (antigo magistério) e Educação de Jovens e Adultos (EJA). As provas serão aplicadas de forma virtual pelo sistema do governo do Estado e também de forma física que pode ser feita na escola se já estiver com aulas presenciais ou em casa. O formato contempla questões objetivas e descritivas. Alice destaca que não se trata de um ranking, onde a avaliação dará nota ao aluno ou a escola, mas será para avaliar as competências desenvolvidas como a capacidade de interpretação e o raciocínio lógico. “Não vamos mapear se o aluno sabe fazer conta de dividir. Vamos mapear se ele entendeu que para resolver aquele problema, precisa fazer conta de divisão”, ressalta a coordenadora.
Sobre a confiança do levantamento, já que ele pode ser feito de casa, Alice diz que mesmo o aluno pedindo ajuda ou consultando o material será um resultado, pois irá mostrar que ele teve a noção de onde e como buscar auxilio. O pedido, é para que haja a participação dos alunos neste processo importante de mapeamento que vai influenciar nos conteúdos e na forma como serão abordados a partir do segundo semestre deste ano. Os resultados irão ditar quais as peculiaridades de cada região para que sejam trabalhados com os estudantes.
O levantamento também é o primeiro que vai gerar evidências sobre o impacto na educação dos gaúchos com a suspensão das aulas presenciais. “No momento não temos como dizer quanto tempo vamos levar para recuperar a aprendizagem, porque ainda não sabemos o que foi perdido, por isso a importância deste mapeamento”, comenta Alice.
Reflexos na sala de aula
Ao todo, 125 escolas estão sob responsabilidade da 5ª Coordenadoria, deste total na região, apenas 25 possuem aulas presenciais. Em Pelotas, 11 instituições estão recebendo os alunos. Entre elas, a Escola Estadual de Ensino Fundamental Arco Íris, que conta com 264 estudantes matriculados. No momento, 32 alunos do 1° ao 5° Anos estão frequentando as aulas presencialmente, o restante continua de forma remota.
Segundo a professora das séries iniciais da escola, Elaine Miranda, já é possível sentir o impacto no aprendizado causado pelo afastamento das instituições de ensino. Segundo ela, os alunos não poderiam ter sido aprovados para a série seguinte, pois não alcançaram os objetivos. Entre os motivos estariam a falta de participação e a proximidade com o aluno para o aprendizado ocorrer do forma mais satisfatória. Com 21 anos de experiência na área, a professora conta que boa parte das crianças não estão preparadas para a série que frequentam. “É frustrante, pois eu sei que o resultado poderia ser outro. No quarto ano, os alunos eram para estar sabendo resolver problemas com as quatro operações, interpretar e até começar a produzir texto, mas ainda estamos na produção de frases. Não consigo avançar”, comenta Elaine. Para tentar ajudar um pouco mais os estudantes, ela criou uma apostila com atividades para buscar um desenvolvimento das crianças.
O diretor da escola, Matheus Siqueira conta que além da preocupação com a falta de acesso adequado à internet para realizar as atividades e a segurança sanitária dos alunos, existem outras questões que exigem maior atenção. “A preocupação inicial da escola é dar a prioridade para os alunos que realmente precisam do material impresso, do apoio pedagógico e contato direto com o professor para sanar as dúvidas, além da importância em fornecer a alimentação para os alunos”, comenta Siqueira.
Oposição à iniciativa
Nesta segunda-feira (31), às 10h será entregue na 5ª CRE um documento com reivindicações elaborado por um grupo com mais de 30 professores e diretores de escolas da rede. Entre os tópicos abordados no manifesto, está o posicionamento contra o mapeamento chamado de “Avaliar é Tri RS”. Um dos participantes da ação, é Guilherme Bourscheid, responsável pela Escola Jardim América. Segundo ele, a intenção do governo é legitima, mas que esse tipo de estudo já foi realizado pelas instituições e entregue ao executivo estadual. “As escolas já fizeram este diagnóstico próprio, por isso não tem necessidade de fazer isso de forma geral. Isso é um desrespeito com um trabalho já realizado”, comenta Bourscheid.
O diretor ainda diz que a possibilidade dos alunos realizarem a avaliação de casa, pode prejudicar os resultados apresentados. “É injusto para os que farão presencialmente, pois quem fizer de forma on-line terá acesso facilitado às respostas. Querem mostrar a realidade, mas que realidade é essa com um diagnóstico mascarado que não vai mostrar a realidade?”, questiona Bourscheid.
Entre outros pontos do documento que também será entregue à Promotoria Especializada em Educação, estão a sobrecarga de trabalho, recomposição de recursos humanos, a volta às aulas e até um possível assédio moral sofrido pelas equipes diretivas das escolas por parte da Secretaria Estadual de Educação (Seduc). Outra reivindicação é a gratificação paga aos diretores das instituições de ensino que acumula uma defasagem de 82,93%, com no Dieese. A última reposição deste beneficio foi em março de 2010.
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