Preservação
Parte da história sendo enterrada
Grupo pede a preservação dos paralelepípedos em um trecho da rua General Telles
Jô Folha -
A obra de requalificação da General Telles, no centro de Pelotas, tem causado preocupação aos moradores do entorno do antigo Café Lamego, localizado na esquina com a rua Santa Cruz. Mesmo que os trabalhos ainda não tenham avançado até o local, já existe uma mobilização pedindo a preservação dos paralelepípedos da via, item histórico e característico da cidade. Através de um grupo do WhatsApp, foi criado o movimento “Entorno do Café Lamego”, que reúne moradores, escritores e músicos que pedem a permanência da pavimentação original.
Um dos participantes do movimento é Paulo Renato Baptista que defende a importância histórica e cultural das pedras. “Esse tipo de pavimentação faz parte do centro histórico da cidade. Não estão passando uma borracha na história, estão passando um piche”, comentou. O professor de física aposentado conta que no trecho de duas quadras entre as ruas Almirante Barroso e Gonçalves Chaves existem nove casas inventariadas onde é mantida a fachada e a volumetria original do imóvel e, por isso, preservar o pavimento é de extrema importância para o conjunto arquitetônico. Baptista ainda lamentou o asfaltamento em outros pontos do centro, como em frente ao antigo Grande Hotel, que segundo ele acabam descaracterizando os traços originais. Ele defende que as características da cidade deveriam ser melhores exploradas para o turismo.
Para tentar buscar soluções, foi feito um abaixo assinado virtual que conta com mais de 200 assinaturas, entre elas de personalidades conhecidas da cidade como o cantor e escritor Vitor Ramil e do diretor e criador do Grupo Tholl João Bachilli. Uma carta foi protocolada e entregue à prefeita Paula Mascarenhas (PSDB), pedindo para que ela analisasse a necessidade de pavimentar o trecho. Mas segundo Baptista não houve um retorno do Executivo.
Sem respostas, no dia 22 de abril o grupo protocolou um pedido de providências no Ministério Público solicitando à prefeitura que não seja realizada a pavimentação neste pedaço da General Telles. O MP estabeleceu 20 dias para que a prefeitura se manifeste a respeito do caso - o prazo se encerra na próxima quarta-feira. Quem está acompanhando o caso é o promotor André Borba, que aguarda o retorno do Poder Executivo. “A partir da resposta da prefeita vou apurar quais as próximas diligências e serem feitas”.
História e a vida da cidade precisam ser mantidos
Para preservar a história do local que tanto lhe serviu como inspiração, o escritor e músico pelotense Vitor Ramil também se uniu à causa. “Os paralelepípedos são parte da nossa história, conheço muitas pessoas que visitaram a cidade e comentaram sobre a beleza deles. É uma marca da nossa cidade e por isso é muito importante que seja preservada”. Ramil recorda do ano em que foi patrono da Feira do Livro de Pelotas, em 2015, que em seu discurso destacou a requalificação que havia sido feita na rua Dr. Amarante esquina com Padre Anchieta, onde as pedras haviam sido recolocadas e emparelhadas. Mas ele lamenta que algum tempo depois, o mesmo trecho recebeu asfaltamento. O escritor ainda relembra que o mesmo foi feito com a frente do Theatro Guarany e pede para que esses espaços sejam mantidos. “Pelotas precisa seguir no sentido da preservação. Sei que a realidade é outra, com mais carros, veículos pesados, mas a história e a vida da cidade precisam ser mantidos”, frisa Ramil.
Outra personalidade conhecida da cultura pelotense que se juntou ao movimento é o diretor e criador do Grupo Tholl, João Bachilli. Segundo ele, a cidade possui peculiaridades únicas que devem permanecer. “Atualmente existe uma confusão muito grande, pois acham que evoluir como cidade ou comunidade é desprezar o passado, mas não, ele precisa ser preservado. Esse entorno do Café poderia se tornar um cartão postal da cidade se receber o devido investimento. É muito insensível colocar asfalto lá”. Bachilli relembra itens históricos que acabamos perdendo como o antigo Museu do Telefone, e os bondes com seus trilhos, que ainda possuem alguns resquícios na região do Porto. “Falam tanto em turismo, mas porque não diferenciar a cidade com o que já tem? Com nossas características. As pessoas de fora [da cidade] adoram. Precisamos manter nossa história e não descaracterizá-la”, argumenta.
O piso também é parte da paisagem
Os paralelepípedos da rua General Telles são feitos de granito, um material de grande resistência e um alto valor agregado como explica Ester Gutierrez, especialista em Gestão do Patrimônio. Ela lembra que as pedras eram transportadas por uma linha férrea da pedreira localizada em uma região onde hoje pertence ao município de Capão do Leão. Preocupada com a importância histórica deste material ao município, ela defende sua permanência. “Toda pavimentação do centro histórico deveria ser preservada. Não adianta manter uma casa que alguém visitou com seu valor artístico e cultural, se não manter o seu entorno. O piso também faz parte desta paisagem, é preciso dar manutenção e não mudar”. Ela ainda destaca que caso ocorram muitas mudanças, a cidade pode não ficar qualificada para participar de projetos culturais e históricos realizados pelo governo federal ou estadual.
Ester lamenta as ações que vem sendo feitas na pavimentação da cidade desde a época do prefeito Bernardo de Souza, quando houve o asfaltamento do entorno da Praça Coronel Pedro Osório. Ela também cita as ruas em volta da Catedral Metropolitana, uma das partes mais antigas da cidade, onde existia a freguesia de São Francisco de Paula. No local, foi colocado asfaltamento para a implantação de uma ciclo-faixa. “Isso é muito triste, se começar a modificar vai sobrar o que? Se não preservar o patrimônio, vamos perdê-lo.”
O professor do departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Luís Rubira, diz que ao colocar asfalto existe uma ilusão de progresso e lembra de cidades históricas da Europa como Paris, onde nas proximidades do Museu do Louvre, onde há um equilíbrio entre o calçamento em pedra e o asfalto. Em um artigo publicado na edição do dia 6 de março de 2020, no Diário Popular, Rubira diz que não existe justificativa para a cobertura de novas camadas de pavimento em asfalto e concreto que nada tem a ver com o legado histórico. Ele também relembra o esforço daqueles que trabalham com a pedra e criticam os que dizem que a cidade parou no tempo. “Não é Pelotas que ainda está ‘na idade da pedra’. Quem dera fosse. O que está na ‘idade da pedra’ são certas ideias antiquadas sobre progresso. As mesmas ideias contra as quais aquela moça jogou um paralelepípedo na França em maio de 1968. Gesto amplamente metafórico, registrado num cartaz com a frase: “La beauté est dans la rue” (a beleza está na rua)” escreveu.
Poder Executivo diz que tentará alterar o projeto
Em nota através da assessoria de comunicação, a prefeitura informou que está ciente do movimento feito pelos moradores e que enviou uma assistente social para conversar com eles, mas durante a visita, foi constatado que a maioria dos residentes daquele trecho preferem o pavimento em asfalto. Mesmo assim, o município entrou em contato com a Caixa Econômica Federal para verificar a possibilidade de alterar o projeto neste momento, já que os recursos para a obra são oriundos de emenda parlamentar do deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB). A primeira resposta do banco foi negativa e, agora, o Executivo aguarda um esclarecimento detalhado para tomar uma decisão que não coloque em risco o recurso.
A prefeitura defende a pavimentação da via alegando que vai desafogar o trânsito do centro da cidade em direção ao bairro Fragata. Atualmente, a única rua usada para esse trajeto é a Marechal Floriano Peixoto, que também recebeu obras de requalificação. No estudo realizado, a Telles era a via mais adequada para promover a diminuição no fluxo de veículos. A obras vão da rua Almirante Barroso até a rua Marcílio Dias. O pavimento está sendo colocado sobre os paralelepípedos. As intervenções iniciaram em abril entre a avenida Saldanha Marinho e a rua Barão de Santa Tecla, com escavações para o sistema de drenagem. O investimento é de aproximadamente R$ 970 mil. Além da pavimentação asfáltica, contempla drenagem, acessibilidade e sinalização horizontal e vertical em 1.300 metros de extensão.
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