Causa nobre

Com internet, mas sem onde conectar

Colégio Estadual Félix da Cunha está em busca de celulares e tablets para que os estudantes possam acessar as aulas

Jô Folha -

Apesar de o governo do Estado ter firmado um acordo com as quatro operadoras de telefonia móvel que atendem o RS para dar suporte aos alunos da rede nas aulas on-line, uma grande parcela desses estudantes ainda não conseguiu acessar os conteúdos por conta da falta de equipamentos como celulares. Em Pelotas, a Escola Estadual Félix da Cunha lançou a campanha ‘Apadrinhe um aluno do Félix’, com foco na arrecadação de celulares e tablets aos estudantes.

A casa de ensino leciona para alunos desde os primeiros anos do Fundamental até o último ano do Médio, totalizando mais de 500 estudantes. Conforme explicou a diretora Eliana Pimentel, cerca de 80 alunos não possuem qualquer aparelho que permita o acesso à internet, uma parcela de 15,8% do corpo discente do Félix da Cunha. “O número é ainda bem maior que esse. Os alunos do currículo, dos primeiros anos do ensino fundamental, também não têm celulares e usam os dos pais”, ressaltou. O problema maior é com os mais velhos, que sem o próprio aparelho não têm como acompanhar os conteúdos pela plataforma Google Class Room.

Localizado no Porto, a comunidade do colégio é oriunda de localidades do entorno da instituição, da Balsa, Navegantes, Fátima, Doquinhas e do Quadrado, em sua maioria. Filhos de comerciários, catadores e recicladores. Em alguns casos os pais têm celulares mas não é compatível com a plataforma, são muitos casos.

Desde o início do mês de junho, os educandários da rede estadual passaram a implementar a plataforma do Google como principal para o ensino remoto. A professora da área de linguagens, Eliana Francilio, ressaltou que, além de dificuldades no acesso, o ensino a distância ainda é um grande obstáculo. “Eu leciono há 34 anos e nunca tinha preparado uma aula EaD. Acabo passando praticamente todo o dia em frente ao computador porque esse sistema exige muito mais”, conta. 

Eliana lembra que antes da implementação da plataforma Class Room, as atividades eram enviadas pelo Facebook e WhatsApp aos estudantes, por meio de grupos ou publicações. Agora, com horário marcado, as turmas podem dialogar com a professora pelo site ou app. “Ainda sim é bem complicado e temos pouco retorno. Em uma turma inteira, às vezes só um aluno está acompanhando o remoto”, afirma.

Sem acesso, sem vontade de aprender

Na casa da Daiane Lages, 35, três dos filhos estão matriculados na Escola Félix da Cunha e todos precisam dividir um único celular. Quando as aulas passaram ao modelo remoto, a mãe buscava as atividades na escola, impressas em folhas. Desde a mudança para o Google Class Room, a situação ficou ainda mais difícil. “Sem ir ao colégio fica muito ruim. Eles estão perdendo a vontade de aprender”, contou. 

Os três filhos, de nove, 13 e 16 anos, estudam no 4º e 8º do ensino Fundamental e 3º e último ano do Médio, respectivamente. O último, que já é pai, tem ainda mais dificuldades em acompanhar os conteúdos. Ela e o marido trabalhavam juntos em uma charrete, buscando materiais reciclados para vender; nos últimos anos, Daiane deixou o serviço de lado para cuidar do filho pequeno, de três anos, e hoje o marido segue na luta diária.

Volta às aulas presenciais não tem definição

O que inicialmente estava previsto para ocorrer no dia 31 de agosto, agora não possui qualquer tipo de definição. A princípio, a retomada seria pelo Ensino Infantil, com as demais modalidades reiniciando escalonadamente até o começo de outubro. Essa proposta, no entanto, foi rejeitada nesta semana pelas associações de municípios (Famurs), Ministério Público, Tribunal de Contas, representantes do Palácio Piratini e prefeitos da Zona Sul.

Equipamentos para alunos do município

A Câmara de Vereadores de Pelotas aprovou e enviou à sanção da prefeita na última quarta-feira (26) a lei que autoriza o município a emprestar celulares, tablets e computadores a alunos da rede pública. A proposta da vereadora Zilda Bürkle (PSDB) é que aparelhos ociosos dentro da estrutura administrativa ou doados por empresas e cidadãos sejam distribuídos para que os estudantes tenham acesso a atividades pela Internet.

No começo de agosto o Poder Judiciário repassou à prefeitura 225 celulares, quatro notebooks e dois tablets com esse propósito. A parlamentar defende que a iniciativa seja ampliada e alcance mais estudantes, sobretudo na zona rural.

Apadrinhe um aluno do Félix!

Para doar um dispositivo móvel a um dos 80 alunos que precisam na Escola Félix da Cunha, seja celular ou tablet com acesso à internet, os interessados podem entrar em contato com a diretora da escola pelos telefones (53) 98149-9654 ou (53) 99947-9654. De preferência, a entrega deve ocorrer na sede da escola, localizada na rua Benjamin Constant, 1.459 - em formato de plantão, o educandário abre somente nas terças-feiras, das 12h30min às 16h30min.

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